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CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE:

O perigo da história única

  • In GEO
  • 2020-12-27
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Eu sou uma contadora de histórias e gostaria de vos contar algumas histórias pessoais sobre aquilo que gosto de chamar "o perigo da história única".

Eu cresci num campus universitário na parte oriental da Nigéria. A minha mãe diz que comecei a ler aos dois anos, embora eu pense que aos quatro provavelmente esteja perto da verdade. Por isso eu fui uma leitora precoce. E o que eu li eram livros para crianças britânicos e americanos.

Eu fui também uma escritora precoce. E quando comecei a escrever, por volta dos sete anos, histórias a lápis com ilustrações a lápis de cor que a minha pobre mãe era obrigada a ler. Eu escrevia exactamente o tipo de histórias que eu lia. Todas as minhas personagens eram brancas e de olhos azuis. Brincavam na neve. Comiam maçãs. E falavam bastante sobre o tempo, como era maravilhoso o sol ter aparecido. Isto, apesar do facto de eu viver na Nigéria, nunca tinha estado fora da Nigéria.

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Nós não tínhamos neve. Nós comíamos mangas. E nós nunca falávamos do tempo, porque não havia necessidade. As minhas personagens também bebiam muita cerveja de ginja porque as personagens dos livros britânicos que eu lia bebiam cerveja de ginja. Não importava que eu não tivesse ideia do que cerveja fosse. E por muitos anos, eu tive o desejo desesperado de provar cerveja de ginja. Mas isso é outra história.

O que isto demonstra, penso eu, é quão impressionáveis e vulneráveis somos face a uma história, particularmente as crianças. Porque tudo o que tinha lido era livros em que as personagens eram estrangeiras e convenci-me de que os livros pela sua própria natureza tinham que incluir estrangeiros e tinham de ser sobre as coisas com as quais não podia pessoalmente identificar-me.

Bem as coisas mudaram quando descobri livros africanos. Não havia muitos disponíveis e eles não eram tão fáceis de encontrar como os livros estrangeiros, mas devido a escritores como Chinua Achebe e Camara Laye, eu passei por uma mudança mental na minha percepção da literatura. Apercebi-me que pessoas como eu, raparigas com uma pele cor de chocolate, cujo cabelo estranho não podia formar rabos de cavalo, também podiam existir na literatura. Comecei a escrever sobre coisas que reconhecia. Bem, eu amava aqueles livros Americanos e Britânicos que lia, eles agitaram a minha imaginação. Eles abriram novos mundos para mim. Mas a consequência não intencional foi que eu não sabia que as pessoas como eu podiam existir na literatura. Então o que a descoberta de escritores africanos fez por mim foi isto: salvou-me de ter uma história única daquilo que os livros são.
(…)

Anos mais tarde deixei a Nigéria para ir para a Universidade nos Estados Unidos. Eu tinha 19 anos. A minha companheira de quarto americana ficou chocada comigo. Ela perguntou onde eu tinha aprendido a falar Inglês tão bem e ficou confusa quando disse que a Nigéria por acaso tinha o Inglês como língua oficial. Ela perguntou se podia ouvir aquilo a que chamou a minha música tribal e ficou consequentemente muito desapontada quando eu desencantei a minha cassete da Mariah Carey. Ela presumiu que eu não sabia como se usava um fogão. O que me espantou foi isto, ela tinha sentido pena de mim mesmo antes de me ter visto. A sua posição base em relação a mim enquanto africana era uma espécie de piedade paternalista bem intencionada. A minha companheira de quarto tinha uma história única de África.
(…)